Antes de liderar pessoas, precisamos compreender de gente

Algo essencial está desalinhado. Antes mesmo da vida profissional e muito antes de qualquer lugar de liderança.

O que hoje vemos nas empresas não nasceu ali. Chega até elas trazido por histórias familiares, modelos educativos frágeis e uma dificuldade coletiva de lidar com emoções. Antes de sermos líderes, fomos filhos. E muitos de nós fomos educados por pais assustados com um mundo que mudou rápido demais.

Sem repertório emocional, muitos adultos aprenderam a oferecer dinheiro, conforto e coisas no lugar de presença, conversa e trocas significativas. Faltou ensinar como lidar com frustração, como sustentar limites, como conversar quando algo dói e como respeitar o outro sem precisar dominar ou se afastar.

Esse aprendizado depende de vínculo, exemplo e convivência. Quando ele não acontece, as consequências aparecem mais tarde.

Esse adulto chega à vida profissional carregando lacunas que não foram cuidadas.

David Rock explica, a partir da neurociência, que o cérebro humano reage às relações sociais da mesma forma que reage a ameaças físicas. No dia a dia das empresas isso é visível: alguém é interrompido em uma reunião, tem sua fala desconsiderada, sente-se controlado ou tratado com injustiça. O cérebro entra em modo de proteção. A reação surge em forma de defesa, rigidez, ironia ou afastamento. A empatia, a escuta e o pensamento mais consciente perdem espaço.

Em muitos casos, não se trata apenas de caráter individual, mas de uma formação emocional precária, que compromete a capacidade de reconhecer emoções, pausar impulsos e considerar o impacto das próprias ações. Quando isso não é trabalhado, comportamentos destrutivos encontram terreno fértil.

Um episódio recente que chocou o país e o mundo, ajuda a compreender essa fragilidade. O caso do cão Orelha, que foi brutalmente agredido até a morte, não pode ser lido como um fato isolado. Em palavras simples, foi uma reação desmedida, movida por impulso, raiva e incapacidade de lidar com limites.

Situações extremas revelam falhas profundas. Em proporções muito menores, esses mesmos padrões aparecem todos os dias quando alguém grita em uma reunião, humilha um colaborador, usa o poder para controlar ou se afasta emocionalmente para não se envolver. O que muda é a intensidade. A raiz permanece.

A NR-1 surge nesse cenário como um marco importante. Ela não cria o problema. Ela torna visível algo que já estava presente: saúde mental, respeito e segurança emocional passaram a ser responsabilidade coletiva dentro das organizações.

Como escrevo em Alma de Líder:

Liderar com alma é transformar o mundo enquanto nos transformamos por dentro.” (p. 7)

Ao longo da vida, passamos por momentos em que reconhecemos um incômodo, nos adaptamos a papéis para pertencer, começamos a questionar esses papéis, aprendemos com a dor, transformamos escolhas, revisitamos nossa história e, quando há maturidade, integramos quem somos com o que fazemos. A Abordagem Integrativa Transpessoal, desenvolvida por Vera Saldanha, apoia na compreenção desse processo de amadurecimento humano.

Quando esse processo não acontece, a liderança se torna defensiva, rígida e distante. Jung já alertava que o afastamento entre a imagem social e a verdade interior gera conflitos e comportamentos desorganizados. O mesmo ocorre com organizações que insistem em parecer algo que já não conseguem sustentar.

Como afirmo no livro:

“A liderança consciente nasce da coerência entre intenção, atitude e impacto no mundo.” (p. 7)

Virar essa chave exige educação emocional real. No cotidiano, isso significa líderes capazes de compreender o funcionamento do cérebro humano, sentir emoções, reconhecê-las e nomeá-las. Pessoas dispostas a admitir o que sentem, a perceber quando reagem por medo de se envolver e quando se afastam para não se expor.

Significa sustentar conversas reais, pedir desculpas quando necessário, escutar sem interromper, respeitar limites e criar ambientes onde ninguém precise se defender para existir. Uma liderança construída em uma dança viva de coragem, transparência e presença, onde a relação com o outro nasce da inteireza consigo mesmo.

O futuro das organizações depende menos de novas ferramentas e mais de líderes capazes de compreender o cérebro humano, sentir e saber o que é uma emoção, nomeá-la, reconhecer vulnerabilidades e identificar reações movidas pelo medo de se envolver. Depende da coragem de se relacionar com mais inteireza consigo e com o outro, honrando a dignidade das pessoas no cotidiano.

É nesse ponto que cultura, liderança e humanidade finalmente se encontram.